EX2 é a arma principal da Geely em uma ‘guerra’ que o brasileiro só tem a ganhar
Testamos a versão topo de linha do pequeno elétrico, que custa o mesmo – até menos – que vários modelos puramente a combustão
Em um mercado sobrecarregado, seja de qual setor for, com poucas marcas – ou com domínio claro de um grupo seleto –, quem perde é o consumidor, pois acaba se vendo “refém” de produtos que poderiam ser melhores e mais baratos. No setor automotivo não é diferente, mas felizmente estamos vivenciando uma importante mudança.
Durante muito tempo, as ditas marcas tradicionais navegaram sozinhas por aqui, impondo produtos que o preço não condizia com a entrega (principalmente na qualidade dos materiais, equipamentos e tipos de propulsão). Mas a chave virou a partir do início desta década, com a chegada de montadoras chinesas ao mercado brasileiro.

De cara, elas mostraram que os produtos comercializados por aqui estão bem defasados, e logo se criou uma “guerra fria” contra as marcas tradicionais. Superada a primeira barreira da desconfiança do público médio brasileiro, outras chinesas voltaram a atenção para o nosso país e entraram na disputa, inclusive contra as compatriotas.
O mercado brasileiro é um dos maiores do mundo e com potencial de crescer ainda mais. Com essa lacuna, diversas marcas chinesas procuram ganhar espaço por aqui. Uma delas, que voltou recentemente ao país e busca não só disputar contra as que já estavam por aqui, mas também contra as conterrâneas, é a Geely. E um dos modelos de destaque dela é o pequeno EX2, que vem ganhando o consumidor brasileiro e é o nosso “Teste da Vez”.
Precificação

A versão que testamos do EX2 foi a topo de linha, a Max, que sai por R$ 136.800. Mesmo sendo a mais cara do hatch, ela deixa o modelo como o segundo elétrico mais barato do país, atrás apenas do BYD Dolphin Mini (R$ 119.990). No mais, todos custam bem mais, como BYD Dolphin SE (R$ 169.990), GWM Ora 03 (R$ 169 mil) e GAC Aion UT (R$ 159.990). Ainda há o Chevrolet Spark (R$ 144.990), que é um rival indireto.
Mas não é só entre os elétricos que ele tem preço diferenciado. O EX2 é mais barato até que modelos puramente a combustão, como Honda City Hatchback (R$ 155.300) e Volks Polo R$138.690). Peugeot 208 (R$ 134.990) e Hyundai HB20 (R$ 132.990) têm valores similares aos do chinês. Apenas Chevrolet Onix (R$ 121.190) que passou por uma recente redução, Citroën C3 (R$ 113.990) e Fiat Argo (R$ 111.990) custam bem menos.
“Engraçadinho”

A Geely afirma que o design do EX2 segue um estilo “fun”, ou seja, divertido. Fosse um modelo antigo, claramente seria chamado de engraçadinho. Mas não é só “lorota” de montadora, ele realmente tem uma pegada divertida, o que cai bem em um modelo urbano, voltado para os grandes centros.
A dianteira segue o padrão da categoria, com visual limpo, tendo apenas uma pequena entrada de ar na parte inferior. O mais engraçado é que o desenho do para-choque (que é bem volumoso), dos grandes faróis em LED e do capô deixam o hatch com uma expressão como se estivesse sorrindo, corroborando com o estilo divertido. Ao contrário do irmão maior, o EX5, ele conta com um porta-malas dianteiro (frunk) de ótimos 70 litros.

As laterais seguem o mesmo padrão, bem limpas, com exceção da coluna C, que conta com um desenho diferenciado, apontando ainda mais para o lado divertido do carro. O desenho das rodas também é diferenciado, apesar do aro fora do comum, de 18 polegadas. A traseira tem o mesmo estilo da frente, destaque para as lanternas em LED. Já o porta-malas traseiro tem ótimos 375 litros de capacidade, para um hatch compacto.
O interior do chinês também segue a pegada divertida. As portas e o painel frontal contam com desenhos representando uma cidade grande, além disso, são iluminadas com várias opções de cores. Até os bancos têm desenho diferenciado e o do motorista tem ajustes elétricos. Destaque ainda para as telas digitais gigantes de 8,8 e 14,6 polegadas.

Mas nem tudo são flores na cabine do EX2. Como diversos outros modelos vindo da China, quase todas as funções dele estão disponíveis apenas na tela da central multimídia, é um minimalismo exagerado. Outro porém é a posição das portas USB, que ficam na parte de baixo do console central, que é elevado e de dois andares.
Apesar de materiais mais simples, o acabamento interno é bem-feito, com peças bem encaixadas e sem rebarbas aparentes. Sobre o espaço, quem vai atrás tem uma boa área para os joelhos, graças aos 2.650mm de entre-eixos e ao assoalho plano, típico de modelos elétricos. Claro que, três adultos geram um aperto lateral, afinal estamos falando de um hatch compacto, mas dois viajam com extremo conforto.
Na medida

Outro trunfo das chinesas perante as ditas tradicionais é a lista de equipamentos, bem mais generosa do que os rivais “nacionais”. Com o EX2 não é diferente. Ele vem com bancos e volante revestidos em material premium e ajustes elétricos para o do motorista, iluminação interna dinâmica em LED, ar-condicionado digital com saída de ar para a traseira.
Abertura das portas e partida “sem a chave”, as telas digitais, conexão com smartphones via Android Auto e Apple CarPlay, porta-luvas tipo gaveta de 10 litros, conectividade 4G, carregador de celular por indução, três portas USB e monitoramento e controle remoto via App Geely.

Na parte de segurança, faróis, luz de circulação diurna e lanternas em LED, freio de estacionamento eletrônico com Auto Hold, câmera 540º, seis airbags, controles de tração e de estabilidade, auxiliar de partida e descida em rampa, monitoramento da pressão dos pneus, sensor de estacionamento traseiro e pacote Adas nível 1.
O sistema de auxiliares de condução vem com farol alto com controle inteligente, piloto automático adaptativo, alerta de mudança de faixa e frenagem automática de emergência. Ele poderia vir também com monitoramento de ponto cego e assistente de permanência em faixa, no mínimo.
Na tomada

O EX2 segue o padrão de modelos elétricos de entrada, com bateria de 39,4kWh de capacidade, o que possibilita uma autonomia oficial pelo padrão PBEV do Inmetro de 289 quilômetros. No entanto, no painel e com 100% de carga, ele apontou 356 quilômetros. E, assim como o EX5, passamos longe deste valor, mas o hatch ainda foi melhor que o SUV.
Durante nosso teste, ele caiu cerca de 16,3% a mais do que o apontava no painel, ou seja, em vez dos 356 quilômetros, ele roda cerca de 300 – o irmão maior apresentou uma queda de 25%. A vantagem da bateria menor é que ela carrega mais rápido também. Em pontos DC de 60kW (os mais comuns atualmente), ele ganha cerca de 50% de carga em 20 minutos, ou seja, o tempo de comprar um pão e um leite no mercado enquanto carrega.
Mais diversão

A pegada divertida do EX2 não é restrita apenas ao visual externo e interno, ela está presente na direção também e por um motivo, digamos, inusitado. O hatch é o primeiro elétrico de entrada do Brasil com tração traseira. Sim, o motor dele foi instalado no eixo de trás, por isso porta-malas frontal tão grande.
Isso faz com que, mesmo não tendo uma potência absurda – são honestos 116 cavalos e 15,3kgfm de torque, o equivalente a números de modelos com motor 1.0 turbo a combustão –, ele possibilita uma tocada divertida. Com a força do propulsor elétrico empurrando o veículo e uma boa resposta do acelerador, o hatch passa uma sensação de esportividade.

Além de prazerosa, a direção do chinês é segura. Ele faz as principais manobras com precisão e sem sustos. De ultrapassagens a saídas e retomadas de velocidade, tudo é feito com total segurança. Um fato interessante é que, mesmo com tração traseira, em momento algum há sensação de perda de controle, mesmo em curvas de maior velocidade.
O complemento do conjunto mecânico também é diferenciado e bem superior aos rivais puramente a combustão. O EX2 vem com freios a disco nas quatro rodas, suspensões independentes nos dois eixos (McPherson na dianteira e multilink na traseira) e, óbvio, direção elétrica, além de pneus 205/65 R18 e três modos de condução (Eco, Comfort e Sport).
A opinião do Diário Motor

Em uma disputa por espaço em um mercado bastante competitivo como o automotivo brasileiro, novas marcas são muito bem-vindas, principalmente se forem trazer modelos que quebrem o senso comum. Se a BYD iniciou esta empreitada, outras montadoras estão vendo como o setor no Brasil pode ser melhor explorado.
Dentro deste contexto, o Geely EX2 se destaca por ser um modelo que aposta bem na ofensiva das conterrâneas, com visual interessante, lista de equipamentos elevada, espaço interno generoso e motorização elétrica otimizada, sem falar no preço minimamente agressivo (não estamos dizendo que R$ 137 mil é pouco). Com isso, o hatch se mostra um produto para lá de interessante. Logo, vale a compra! Nota: 8,5.
Ficha Técnica
Motor: elétrico
Potência máxima: 116cv
Torque máximo: 15,3kgfm
Autonomia: 289 quilômetros
Direção: elétrica
Suspensão: independente nos dois eixos
Freios: a disco nas quatro rodas
Porta-malas: 375 litros
Dimensões (A x L x C x EE): 1.580 x 1.805 x 4.132 x 2.650mm
Preço: R$ 136.800