A Casa de Telhado de Vidro

Quando a política substitui propostas pela destruição do adversário, as pedras lançadas acabam caindo sobre toda a sociedade.

Ninguém sabe ao certo quem atirou a primeira pedra. Talvez tenha sido o morador que descobriu uma pequena rachadura no telhado do vizinho. Talvez tenha sido aquele que, incapaz de defender a própria casa, percebeu que seria mais fácil apontar as imperfeições da casa ao lado. O que se sabe é que, depois da primeira pedra, vieram muitas outras. Em pouco tempo, todos estavam ocupados demais acusando uns aos outros para perceber que viviam na mesma casa de telhado de vidro.

A política sempre foi feita de divergências, disputas e conflitos. Uma sociedade democrática não exige unanimidade, mas a capacidade de discordar sem transformar o adversário em inimigo. A divergência faz parte da democracia. A destruição moral do outro é algo diferente.

Quando a política abandona as propostas e passa a se sustentar na demonização do adversário, a escolha deixa de ser uma decisão sobre o futuro e se transforma em uma reação ao medo. Já não se pergunta qual projeto pode melhorar a educação, a saúde, a segurança, a justiça ou as condições de vida. Pergunta-se apenas quem representa o maior perigo e precisa ser derrotado a qualquer custo.

A crise ética começa quando um candidato deixa de perguntar por que deveriam acreditar nele e passa a perguntar como pode fazer com que todos tenham medo do outro. A partir desse momento, apresentar ideias torna-se desnecessário. Basta lançar pedras.

Algumas pedras são fatos comprovados. Outras são denúncias ainda não esclarecidas, suspeitas, insinuações, frases antigas retiradas do contexto, imagens alteradas ou mentiras fabricadas para parecer verdade. Nas redes sociais, todas circulam com aparência semelhante, acompanhadas pela mesma indignação e compartilhadas com a mesma certeza.

Verificar exige tempo; indignar-se leva apenas alguns segundos. Quando uma acusação confirma aquilo em que alguém já desejava acreditar, sua veracidade deixa de ser uma exigência. Poucos perguntam de onde veio uma gravação, quando foi feita, o que aconteceu antes ou depois, se houve investigação, defesa, julgamento ou conclusão. A dúvida passou a ser interpretada como fraqueza ou cumplicidade.

Denunciar irregularidades e expor fatos relevantes sobre quem pretende exercer o poder é indispensável à democracia. O silêncio diante da corrupção, do abuso e da violência não constitui virtude. Existe, porém, uma diferença ética entre revelar um fato para que a sociedade possa julgá-lo e utilizar qualquer informação — verdadeira, falsa, incompleta ou descontextualizada — apenas para provocar repulsa.

Mesmo a verdade pode ser usada de maneira desonesta. Um fato real, separado de suas circunstâncias, pode conduzir a uma conclusão falsa. A manipulação nem sempre começa com a invenção dos fatos. Muitas vezes, começa com a seleção cuidadosa da parte da verdade que se deseja mostrar.

Na casa de telhado de vidro, cada morador conhece perfeitamente as rachaduras do vizinho. Sabe apontá-las, ampliá-las e iluminá-las para que sejam vistas de longe. O único telhado que raramente examina é aquele sob o qual vive.

Assim, comportamentos considerados imperdoáveis no adversário tornam-se compreensíveis quando praticados por um aliado. A mentira do outro revela falta de caráter; a mentira dos nossos foi apenas uma imprecisão. A corrupção do adversário condena todo o grupo; a dos aliados é um episódio isolado, uma perseguição ou uma invenção. A ética deixa de orientar a própria conduta e passa a servir como arma para julgar a conduta alheia.

Nos mercados, o desafiante costuma comparar-se ao líder. Precisa mencioná-lo, atacá-lo e convencer o consumidor de que oferece algo melhor. Durante a chamada guerra das colas, a marca que ocupava a segunda posição construiu campanhas comparando-se à líder. Ao fazer isso, reconhecia também qual marca constituía a referência. Para o líder, responder a cada provocação significaria permitir que o concorrente determinasse os termos da disputa.

Na política, essa prudência parece ter desaparecido. Desafiantes falam obsessivamente dos líderes, líderes respondem obsessivamente aos desafiantes e todos dedicam mais tempo à promoção involuntária do adversário do que à apresentação de si mesmos. O cidadão aprende minuciosamente por que não deveria votar no outro, mas quase nunca descobre por que deveria votar em alguém.

Quando todos afirmam que o adversário representa o mal, ninguém mais precisa demonstrar que representa o bem. A mediocridade torna-se aceitável, a ausência de propostas deixa de incomodar e qualquer falha pode ser perdoada pela frase que encerra toda reflexão: “o outro é pior”.

Essa degradação não pertence apenas aos candidatos, aos partidos ou aos profissionais das campanhas. Cada pessoa que recebe uma acusação duvidosa e decide compartilhá-la também faz uma escolha ética. Não basta dizer que o conteúdo pode ser verdadeiro ou que o adversário provavelmente fez algo pior. Quem lança uma pedra não deixa de ser responsável por ela apenas porque outros também estão atirando.

A tecnologia ampliou extraordinariamente o alcance de cada gesto. Uma insinuação que antes desapareceria depois de uma conversa pode agora atravessar o mundo em poucos minutos. Uma mentira repetida milhares de vezes não se torna verdadeira, mas adquire a familiaridade da verdade. Quando a correção finalmente chega, raramente percorre o mesmo caminho. A pedra já foi lançada; o vidro já se quebrou.

O resultado é uma política na qual ninguém precisa oferecer um futuro, desde que consiga convencer a sociedade de que o outro representa uma ameaça. O eleitor continua votando, mas já não escolhe aquilo que deseja. Escolhe aquilo que acredita ser necessário para impedir o que teme.

A ética na política não exige candidatos perfeitos, partidos sem contradições ou eleitores sem preferências. Exige apenas que os princípios não mudem conforme o lado que está sendo julgado. Se uma mentira é condenável, deve continuar sendo condenável quando beneficia aqueles com quem se concorda. Se a corrupção é intolerável, não pode ser relativizada quando envolve um aliado. Se a dignidade humana merece respeito, esse respeito não pode depender da posição política de cada pessoa.

Quem vive em uma casa de telhado de vidro deveria pensar antes de atirar pedras. Não porque todas as casas sejam igualmente frágeis ou todas as rachaduras tenham a mesma gravidade. Algumas ameaçam apenas uma vidraça; outras podem comprometer toda a estrutura. Reconhecer essas diferenças é essencial. Nenhuma delas, contudo, torna a mentira verdadeira, a hipocrisia virtuosa ou a destruição irresponsável.

Talvez ainda seja possível exigir propostas em vez de insultos, provas em vez de insinuações e coerência em vez de conveniência. Isso exigiria compreender que o adversário pode estar errado sem ser necessariamente um monstro e que nenhuma vitória justifica a destruição das regras que permitem a todos continuar vivendo juntos.

Quando todos os moradores de uma casa de vidro decidem atirar pedras, já não importa quem lançou a primeira. Ao final, não haverá vencedores — apenas uma casa sem teto e uma sociedade coberta de estilhaços.

David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha em novos projetos de ficção filosófica, entre eles A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), O Instituto de Estudos Avançados do Silêncio e O Departamento de Pesquisas Avançadas Sobre o Significado do Tempo. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com.
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