A Inocência por Comparação

Quando os defeitos do adversário passam a servir como prova das virtudes que um candidato nunca demonstrou

O réu levantou-se para ouvir a sentença.

— O senhor desviou dinheiro público? — perguntou o juiz.

— Menos do que o outro réu.

— Mentiu aos eleitores?

— Com menor frequência.

— Usou o cargo em benefício próprio?

— Nunca tanto quanto ele.

— Violou a lei?

— Apenas quando as circunstâncias exigiram.

O juiz consultou os autos, refletiu por alguns instantes e anunciou:

— Diante da gravidade dos crimes cometidos pelo outro acusado, este tribunal reconhece a sua inocência.

A cena pareceria absurda em qualquer tribunal. Na política, entretanto, tornou-se um dos métodos mais aceitos de absolvição.

Já não é necessário demonstrar honestidade, competência, coerência ou compromisso com princípios. Basta encontrar alguém pior. Quanto mais graves parecerem os defeitos do adversário, mais facilmente os próprios desaparecem. A corrupção de um torna-se prova da integridade do outro. A mentira mais escandalosa transforma a mentira considerada menor em sinceridade. A incompetência absoluta converte a mediocridade em talento administrativo.

Nasce assim a inocência por comparação.

Existem diferenças de grau que importam, mas nenhuma diferença de grau apaga a natureza do ato. Roubar menos continua sendo roubar; mentir menos continua sendo mentir; violar a lei com menor frequência não transforma a transgressão em virtude. A quantidade pode alterar a gravidade, a pena ou as consequências. Não pode mudar o nome das coisas.

Um copo com menos veneno talvez seja preferível a outro com uma dose letal. Continua, porém, não sendo água.

A política contemporânea aperfeiçoou uma estranha alquimia moral: transforma defeitos alegados como menores em qualidades por meio da exposição permanente aos defeitos atribuídos ao adversário. O candidato não precisa mais provar o próprio valor. Precisa apenas manter o oponente sob iluminação constante. Quanto mais escura parecer a figura ao lado, mais luminosa se tornará a sua imagem — ainda que nenhuma luz venha realmente dela.

No início, trata-se de uma estratégia eleitoral. Depois, a comparação passa a fabricar reputações imerecidas. O candidato apresentado como menos desonesto passa a ser tratado como honesto; o supostamente menos autoritário, como democrata exemplar; o menos despreparado, como estadista; o menos irresponsável, como guardião das instituições.

Com o tempo, ele próprio passa a acreditar na personagem.

Já não admite perguntas sobre seus atos, porque toda crítica parece favorecer o adversário. Não responde pelo que fez, mas pelo que o outro faria. Não presta contas de seus erros, porque os erros do oponente são considerados maiores. Em vez de apresentar credenciais, oferece ameaças. Sua principal virtude não está em quem é, mas em quem promete impedir.

O adversário deixa de ser concorrente e transforma-se em álibi.

Essa lógica produz uma espécie de imunidade moral. Questionar um lado passa a significar apoiar o outro. Exigir honestidade de um candidato é interpretado como colaboração com o mais corrupto. Cobrar competência parece ajudar o mais incompetente. Defender princípios torna-se suspeito sempre que esses princípios atrapalham a vitória considerada necessária.

A chantagem é simples: diante de uma ameaça maior, todos os defeitos apresentados como menores devem ser perdoados, esquecidos ou temporariamente suspensos. O problema é que o “temporariamente” quase nunca termina.

Uma eleição é, inevitavelmente, uma escolha comparativa. Os eleitores avaliam alternativas reais, não candidatos imaginários. Em determinadas circunstâncias, podem concluir que um concorrente oferece menos riscos, provocará menos danos ou preservará melhor as instituições. Essa decisão pode ser racional, legítima e até necessária.

Mas escolher alguém não exige santificá-lo.

A preferência circunstancial não produz inocência. O voto pode ser concedido por prudência, receio ou falta de alternativa; não precisa ser convertido em declaração de admiração. Reconhecer que um candidato representa um perigo menor não obriga ninguém a considerá-lo virtuoso. Entre impedir o pior e proclamar a excelência do menos ruim existe uma distância moral que não deveria desaparecer dentro da urna.

Quando essa distância é eliminada, a democracia perde um de seus mecanismos fundamentais: a capacidade de cobrar também daquele que vence. Governantes eleitos por oposição a uma ameaça passam a acreditar que derrotá-la lhes concedeu um mandato moral ilimitado. Como o adversário continua sendo apresentado como perigo permanente, qualquer crítica pode ser denunciada como traição, cumplicidade ou sabotagem.

O pior candidato não prejudica o debate apenas por suas próprias deficiências. Sua existência também protege o outro da obrigação de ser melhor. Quanto mais assustadora for uma alternativa, menos a outra precisa oferecer. O nível de exigência desce até que a simples condição de não ser o adversário se torne programa de governo, credencial ética e promessa de futuro.

Essa talvez seja uma das grandes ironias da polarização: os inimigos mais ferozes dependem um do outro. Cada um oferece ao rival aquilo que ele não conseguiria produzir sozinho — justificativa, identidade e aparência de virtude. Não precisam conquistar a confiança dos eleitores; basta alimentar o medo que o outro provoca.

No tribunal imaginário, o segundo réu pode merecer uma pena menor. Pode até representar um perigo menor para a sociedade. Nada disso o torna inocente.

Na política, o mesmo princípio deveria prevalecer. Os defeitos do adversário podem tornar alguém eleitoralmente preferível, mas não o tornam moralmente melhor do que realmente é. A presença de uma pessoa pior não melhora o caráter, amplia a competência nem confere autoridade a ninguém.

Às vezes, apenas torna alguém muito afortunado por ter encontrado o adversário certo.

David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha em novos projetos de ficção filosófica, entre eles A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), O Instituto de Estudos Avançados do Silêncio e O Departamento de Pesquisas Avançadas Sobre o Significado do Tempo. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com.
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