A Odisseia Começa Depois da Guerra

Homero compreendeu, há quase três mil anos, que vencer uma guerra é apenas o começo. O verdadeiro desafio é encontrar o caminho de volta sem permitir que a guerra continue vivendo dentro de nós.

Costuma-se dizer que A Ilíada narra a Guerra de Troia e que A Odisseia conta a volta de Odisseu para casa. Talvez exista outra maneira de ler esses dois poemas. Um trata da guerra. O outro trata do que a guerra faz conosco depois que ela termina.

Essa distinção aparentemente simples ajuda a explicar por que A Odisseia, escrita há quase três mil anos, continua parecendo surpreendentemente atual.

À primeira vista, trata-se apenas da narrativa do retorno de Odisseu, rei da pequena ilha de Ítaca. Depois de dez anos lutando em Troia, ele enfrenta tempestades, monstros, tentações e deuses imprevisíveis durante outros dez anos até reencontrar Penélope, Telêmaco e a vida que deixou para trás.

Mas talvez essa nunca tenha sido a verdadeira história.

Homero

Homero poderia ter encerrado sua narrativa com a vitória dos gregos. Em vez disso, escolheu começar uma nova epopeia justamente quando a guerra havia acabado. Nessa decisão literária encontra-se uma das observações mais profundas já feitas sobre a condição humana.

Vencer uma guerra nunca foi a parte mais difícil.

Difícil é descobrir como voltar para casa.

Não apenas atravessar mares, mas reconstruir a vida. Reencontrar os afetos interrompidos, restaurar a confiança, reaprender a viver em paz e impedir que a violência dos tempos de conflito continue determinando a maneira de enxergar o mundo.

Talvez por isso A Odisseia permaneça tão contemporânea.

Nem todas as guerras são travadas com exércitos. Algumas começam com uma perda, uma doença, uma separação, uma pandemia, uma crise institucional ou uma transformação tecnológica. Outras dividem famílias, amigos e sociedades inteiras. Cada geração conhece suas próprias batalhas.

Em todas elas, porém, chega um momento em que o conflito termina. E é justamente aí que começa a verdadeira travessia.

Os combates cessam. As manchetes desaparecem. Novas crises ocupam o noticiário. Ainda assim, permanecem o ressentimento, a desconfiança, o medo e a necessidade permanente de continuar lutando. Como se a guerra, depois de abandonar os campos de batalha, encontrasse abrigo dentro das pessoas.

Talvez esse seja o verdadeiro tema da Odisseia.

Os monstros que Odisseu enfrenta talvez não sejam apenas criaturas da mitologia. São formas de perder a si mesmo durante a travessia. O maior risco nunca foi morrer no caminho. Era chegar a Ítaca transformado em alguém incapaz de reconhecer a própria casa.

Por isso, a verdadeira viagem de Odisseu não é geográfica.

É moral.

O destino nunca foi apenas Ítaca. O verdadeiro destino era conseguir voltar para casa sem perder a própria humanidade.

Essa talvez seja também a grande tarefa do nosso tempo.

Nenhuma sociedade pode viver indefinidamente mobilizada para o conflito. Nenhuma democracia permanece saudável quando transforma a guerra em seu estado permanente. Nenhuma pessoa encontra paz se continua travando, dentro de si, batalhas que o mundo já deixou para trás.

É possível vencer uma guerra e perder o futuro.

É possível conquistar uma cidade e perder a capacidade de confiar.

É possível derrotar um inimigo e continuar prisioneiro do ódio.

Homero parece compreender que reconstruir é sempre mais difícil do que destruir. Destruir exige força. Reconstruir exige sabedoria. A guerra pode durar alguns anos; o retorno pode ocupar toda uma vida.

Talvez seja essa a verdadeira razão de A Odisseia continuar sendo lida depois de quase três milênios. Não porque conte a história de um rei grego perseguido por monstros e deuses, mas porque reconhece uma verdade que continua nos acompanhando.

Toda grande ruptura termina duas vezes: primeiro no mundo, depois dentro de nós.

Entre uma e outra existe uma longa travessia.

Porque é possível vencer uma guerra e perder o caminho de volta.

David Gertner, Ph.D., é escritor, autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na “Amazon.com.br” (https://reference-url-citation.invalid/0), e de sua edição em inglês, AI and Me: The Unexpected Journey of Liora and David. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu e radicado há mais de três décadas nos Estados Unidos, é Ph.D. pela Northwestern University. Seu próximo livro, A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), já está concluído e será lançado em breve. Mais artigos e informações em “www.davidgertner.com”
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