Carta a um Amigo que Tenta Mudar Meu Voto
Uma defesa do direito de não escolher nenhum dos dois
Sei que sua insistência nasce de uma preocupação legítima. Você acredita que o país enfrenta uma escolha decisiva e que, diante de duas alternativas, deixar de apoiar aquela que considera menos perigosa equivale a facilitar a vitória da outra. Não duvido de sua boa-fé. Tampouco questiono seu direito de defender o candidato que escolheu.
Peço apenas que reconheça também o meu direito de não escolher nenhum dos dois.
Não se trata de indiferença. Se fosse indiferente, não acompanharia as eleições, não examinaria os candidatos, não discutiria propostas nem me preocuparia com o futuro do país. Minha recusa não nasce da falta de consciência política, mas precisamente dela. Depois de avaliar as alternativas, concluí que nenhuma merece meu voto.
Você chama isso de omissão. Vejo de outra maneira. O voto não serve apenas para impedir que alguém vença. É também uma manifestação de confiança. Ao votar, não escolhemos somente quem ocupará um cargo; emprestamos nosso nome, nossa consciência e uma parcela de nossa legitimidade a quem pretende governar em nome de todos.
Nenhum candidato corresponde inteiramente ao que desejamos, e toda escolha democrática exige algum grau de concessão. Mas concessão não pode significar o abandono completo dos próprios princípios. Existe uma distância entre votar em alguém imperfeito e votar em alguém que se considera inaceitável. Cada eleitor tem o direito de estabelecer onde termina uma coisa e começa a outra.
Você afirma que um dos candidatos é pior. Talvez seja. Compreendo aqueles que chegam a essa conclusão e votam no adversário para impedir sua vitória. É uma decisão legítima. O que não aceito é que seja apresentada como a única decisão moralmente possível.
O chamado “mal menor” continua sendo um mal. Para alguns, escolhê-lo é uma necessidade. Para outros, é uma forma de perpetuar um sistema que oferece sempre as mesmas alternativas e depois culpa o eleitor por não aceitar nenhuma delas. Votar em branco, anular o voto ou escolher outro candidato pode ser uma decisão deliberada: a recusa de conceder legitimidade pessoal a opções consideradas incompatíveis com aquilo em que se acredita.
Isso não significa que todas as alternativas sejam idênticas. Duas escolhas podem ser ruins por razões diferentes e produzir consequências distintas. Reconhecer essas diferenças, porém, não obriga ninguém a transformar rejeição em apoio. Entre preferir uma derrota e desejar uma vitória existe uma distância que não deve ser apagada pela aritmética eleitoral.
O que mais me entristece não é que você discorde de minha decisão. É perceber que, em algum momento, a divergência deixa de ser política e se transforma em julgamento de caráter. Como se votar no candidato que você escolheu fosse prova de lucidez, responsabilidade e virtude, enquanto votar em branco revelasse covardia, omissão ou cumplicidade com tudo aquilo que o adversário representa.
Esse raciocínio pode ser facilmente invertido. Quem rejeita os dois candidatos também poderia acusar seus eleitores de tolerância com a corrupção, o abuso de poder ou outras condutas que condenam. Mas, se cada escolha eleitoral for tratada como confissão moral e cada voto como cumplicidade com todos os atos de um candidato, já não haverá cidadãos com opiniões diferentes. Haverá apenas acusadores e acusados.
Não quero cometer contra você a mesma injustiça que peço que não cometa contra mim. Seu voto não faz de você cúmplice de tudo o que seu candidato fez ou poderá fazer. Da mesma forma, meu voto em branco não me torna responsável pela eventual vitória daquele que você mais teme. Fizemos escolhas distintas diante das mesmas alternativas, segundo nossas próprias consciências e nossos próprios limites.
A uma semana da eleição, nossas posições estão formadas. Você conhece meus argumentos, assim como conheço os seus. Repeti-los não nos aproximará de um consenso. Provavelmente apenas fará com que cada um se entrincheire ainda mais em sua convicção. Quando a persuasão se transforma em insistência, a divergência política corre o risco de se tornar condenação moral — e uma amizade pode acabar pagando por uma eleição que logo passará.
Não lhe peço que concorde comigo. Peço apenas que não interprete minha escolha como covardia, alienação ou cumplicidade. Não votar em seu candidato não significa votar no adversário dele. Significa apenas que nenhum dos dois conquistou aquilo que, numa democracia, deveria ser conquistado e nunca exigido: o meu consentimento.
A maioria escolherá o próximo presidente, e toda a sociedade terá de conviver com as consequências — inclusive aqueles que votaram no derrotado, escolheram outro candidato, anularam o voto ou votaram em branco. Essa é, ao mesmo tempo, a grande força e uma das imperfeições inevitáveis da democracia: a decisão pertence à maioria, mas seus efeitos alcançam a todos.
Aceitar o resultado das urnas não significa aprovar o vencedor nem assumir responsabilidade por sua eleição. Significa reconhecer a regra comum que permite a convivência entre pessoas que fizeram escolhas diferentes. A democracia decide quem governará; não determina o que cada cidadão será obrigado a admirar, justificar ou perdoar.
Vote de acordo com sua consciência. Defenda sua escolha, explique suas razões e cobre do eleito tudo aquilo que espera dele. Farei o mesmo, ainda que minha decisão seja não entregar meu voto a nenhum dos dois. Depois que as urnas forem fechadas, continuaremos pertencendo ao mesmo país e, espero, preservando a mesma amizade.
Governos passam. Eleições terminam. Os danos causados quando transformamos amigos em adversários podem permanecer muito além da apuração dos votos.
Respeitar o voto alheio não significa aprová-lo. Significa reconhecer que a consciência política do outro não nos pertence.