Como Vai? Vai Bem?
O Brasil está entre as maiores economias do mundo. Mas tamanho não é desenvolvimento, volume de investimentos não é prosperidade e promessas não são resultados.
Durante muitos anos, uma expressão popular brasileira respondia à pergunta “Como vai?” com um automático e otimista “Vai bem”. Talvez ela descreva também nossa facilidade para confundir o tamanho do Brasil com o sucesso dos brasileiros.
O país está entre as dez maiores economias do mundo. É relevante. Mas uma economia pode ser enorme porque também são enormes sua população, seu território, seu mercado consumidor e seus recursos naturais. Quando dividimos a riqueza pelo número de habitantes, a fotografia muda.
Em 2024, o PIB per capita brasileiro foi de aproximadamente US$ 10,3 mil. Na Argentina, chegou a quase US$ 14 mil; no Chile, a US$ 16,7 mil; e no Uruguai, a quase US$ 24 mil.
A Argentina, apesar de décadas de crises econômicas, inflação e instabilidade, ainda apresenta renda por habitante significativamente superior à brasileira. Isso não a transforma em modelo. Comparações internacionais não precisam produzir heróis. Servem para produzir perguntas.
E a pergunta é simples: por que uma das maiores economias do planeta ainda encontra tanta dificuldade para transformar sua dimensão em prosperidade individual?
Outros indicadores tornam a pergunta ainda mais incômoda. No Relatório de Desenvolvimento Humano 2025 das Nações Unidas, Chile, Argentina e Uruguai ocupam, respectivamente, as posições 45ª, 47ª e 48ª e pertencem ao grupo de desenvolvimento humano muito alto. O Brasil aparece na 84ª posição.
Na educação, apenas 27% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível básico de proficiência em matemática no PISA 2022, contra 69% na média da OCDE. O Chile chegou a 44%.
Na qualidade das instituições, surge outra diferença. No Índice de Percepção da Corrupção 2025 da Transparência Internacional, que avalia a percepção da corrupção no setor público, o Uruguai ocupa a 17ª posição mundial; o Chile, a 31ª; a Argentina, a 104ª; e o Brasil, a 107ª, entre 182 países.
Esses números talvez digam mais sobre como vai o Brasil do que sua posição entre as maiores economias do planeta.
O mesmo cuidado deveria existir quando celebramos a atração de investimentos estrangeiros. O Brasil recebe grandes volumes de capital internacional. Mas uma economia de mais de US$ 2 trilhões e mais de 200 milhões de habitantes naturalmente tende a receber mais dólares do que economias muito menores. O número absoluto impressiona, mas não conta toda a história.
Também importa saber que capital estamos atraindo.
Uma empresa que constrói uma fábrica, amplia sua produção, instala um centro tecnológico ou investe em infraestrutura assume compromissos diferentes de quem compra ativos financeiros atraído por juros elevados. Ambos representam fluxos de capital, mas seus efeitos sobre produtividade, crescimento e emprego podem ser muito diferentes.
Uma economia que oferece retornos próximos de 15% apresenta ao investidor uma equação diferente daquela que oferece 5%.
Retornos maiores podem compensar riscos maiores. Parte desse capital pode entrar rapidamente — e sair com igual rapidez quando mudam juros, câmbio ou percepção de risco.
Portanto, não basta perguntar quanto dinheiro entrou. É preciso perguntar por que entrou, o que produziu e o que ficará.
A mesma lógica deveria valer para a política.
Há mais de duas décadas, o Presidente e seu Partido chegaram ao poder prometendo reduzir desigualdades, melhorar a educação, combater a pobreza e ampliar oportunidades. Desde 2002, venceram cinco eleições presidenciais e governaram o país durante a maior parte desse período. Houve avanços importantes, que seria injusto negar. Mas muitas das promessas que contribuíram para elegê-los continuam, quase um quarto de século depois, presentes nos discursos e programas de governo.
Isso não significa atribuir a um presidente ou partido responsabilidade exclusiva por problemas que atravessam governos e gerações. Muito menos significa apoiar seus adversários.
Uma das consequências mais empobrecedoras da polarização é imaginar que criticar um lado significa necessariamente pertencer ao outro. Não significa. Democracias deveriam permitir que governos fossem avaliados por seus resultados, independentemente da identidade política de quem faz a avaliação.
E candidatos que já exerceram cargos públicos possuem algo particularmente útil para essa avaliação: um histórico.
Presidentes, governadores, prefeitos, senadores e deputados deveriam ser confrontados com duas perguntas elementares: o que prometeram quando candidatos e o que realizaram quando tiveram poder para agir?
O passado não determina o futuro, mas é uma informação muito mais valiosa do que uma nova promessa eleitoral.
Campanhas oferecem promessas. Governos deixam resultados.
Talvez o maior problema brasileiro não seja falta de riqueza ou potencial, mas nossa dificuldade histórica de transformá-los em capital humano, produtividade, instituições eficientes e qualidade de vida.
Temos recursos naturais extraordinários, agricultura competitiva, empresas sofisticadas, universidades importantes, capacidade tecnológica e uma população empreendedora. O potencial brasileiro nunca esteve seriamente em dúvida.
O que deveria estar em dúvida é nossa maneira de medir o sucesso.
Ser uma das dez maiores economias do mundo impressiona. Estar atrás de vários vizinhos em renda por habitante, desenvolvimento humano, educação e integridade institucional deveria impressionar ainda mais.
Receber bilhões de dólares de capital estrangeiro impressiona. Saber quanto desse dinheiro produzirá capacidade produtiva, produtividade e empregos deveria importar ainda mais.
Ganhar eleições impressiona. Comparar o que foi prometido antes delas com o que foi entregue depois delas deveria importar ainda mais.
Talvez seja essa a diferença entre tamanho e desenvolvimento, entre movimento e progresso, entre discurso e resultado.
Da próxima vez que alguém anunciar, orgulhosamente, que o Brasil está novamente entre as maiores economias do planeta, talvez valha recuperar aquela velha pergunta:
— Como vai o Brasil?
A resposta talvez seja menos simples do que o antigo “Vai bem”.
— Depende do número que escolhemos olhar.
E, principalmente, do número que preferimos não olhar.
—
David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre sociedade, democracia, comportamento humano, ética e cultura. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na amazon.com.br, e prepara o lançamento de A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim). Mais em www.davidgertner.com.