Enquanto Houver Dragões
Há heróis que derrotam monstros. E há aqueles que precisam mantê-los vivos.
Conta-se que, há muito tempo, havia um reino onde vivia um homem que desejava, mais do que qualquer outra coisa, ser admirado. Não lhe bastava ser conhecido, respeitado ou escolhido para governar. Queria ser necessário. Sonhava com o dia em que as pessoas pronunciariam seu nome com gratidão e ensinariam aos filhos que, sem ele, talvez o reino não tivesse sobrevivido.
O problema é que salvadores precisam de alguma coisa da qual salvar os outros.
O reino tinha seus problemas. Havia pobres e ricos, injustiças, descontentamentos, estradas ruins, colheitas melhores em alguns anos e piores em outros. Mas nada parecia suficientemente terrível para transformar um homem comum em herói. Era difícil prometer salvação quando ninguém acreditava estar diante de uma ameaça capaz de destruí-lo.
Foi então que ele se lembrou de um dragão que vivia nas montanhas.
A criatura existia havia algum tempo. Era barulhenta, grosseira e desagradável. Ocasionalmente descia das montanhas, assustava alguns animais, quebrava uma cerca, soltava labaredas e retornava à sua caverna. Alguns moradores tinham medo dela; outros a consideravam apenas uma inconveniência. Havia até quem achasse graça em sua aparência desajeitada e em seus rugidos exagerados.
O homem percebeu, porém, aquilo que os demais ainda não haviam percebido: talvez um pequeno dragão pudesse produzir um grande herói.
Começou então a falar sobre a criatura na praça. Descreveu seus dentes, suas garras e, principalmente, aquilo que ela poderia fazer se ninguém tivesse coragem de enfrentá-la. Não precisava inventar o dragão. Bastava convencer o reino de que sua existência era a maior ameaça que seus habitantes já haviam enfrentado.
Prometeu protegê-los.
Quanto mais falava do perigo, mais as pessoas olhavam para ele em busca de segurança. Quanto mais assustador parecia o dragão, mais corajoso parecia o homem disposto a enfrentá-lo. E assim, quase sem que ninguém percebesse quando exatamente acontecera, ele deixou de ser apenas um homem e passou a ser chamado de Herói.
Durante algum tempo, a relação funcionou perfeitamente. O Herói combatia o dragão, o dragão rugia, a população se assustava e o Herói retornava à praça para lembrar a todos que somente sua coragem separava o reino da catástrofe. Mas havia um problema: apesar de desagradável, a criatura continuava pequena demais. Se desaparecesse ou deixasse de assustar as pessoas, talvez elas começassem a perguntar se ainda precisavam tanto de seu protetor.
Foi quando o Herói tomou uma decisão que mudaria a história do reino.
Numa noite sem lua, levou carne até a entrada da caverna. O dragão comeu.
Ele voltou outras noites. No início, pouca comida. Depois, cada vez mais. A criatura cresceu, suas labaredas alcançaram distâncias maiores e seus rugidos começaram a ser ouvidos dentro das muralhas. Curiosamente, à medida que o dragão se tornava mais ameaçador, aumentava também a importância daquele que prometia combatê-lo.
O Herói havia descoberto uma extraordinária equação: quanto maior o monstro, maior o salvador.
Não significava que gostasse do dragão. Talvez o odiasse sinceramente. Tampouco significava que desejasse vê-lo governar o reino. Queria apenas que fosse suficientemente forte para assustar as pessoas, mas suficientemente fraco para continuar sob seu controle. Precisava combatê-lo, mas não destruí-lo; condená-lo durante o dia e garantir, durante a noite, que continuasse existindo.
Com o tempo, tornou-se difícil saber quem dependia mais de quem. O dragão precisava do alimento que recebia secretamente. O Herói precisava do medo que a criatura espalhava publicamente. Eram inimigos verdadeiros e, ao mesmo tempo, parceiros involuntários de uma relação que nenhum dos dois poderia admitir.
A própria vida no reino começou a se transformar. Problemas que antes ocupavam as conversas foram perdendo importância. Já não se discutia tanto como melhorar as escolas, aumentar a prosperidade, reduzir as injustiças ou tornar as instituições mais eficientes. Quase tudo passou a ser julgado por uma pergunta muito mais simples: de que lado você está?
Criticar o Herói podia significar ajudar o dragão. Criticar o dragão podia significar apoiar o Herói. Aos poucos, pessoas que antes discordavam sobre muitas coisas descobriram que já não precisavam discutir coisa alguma. Bastava escolher um lado.
E, enquanto o reino se dividia, ambos cresciam.
O Herói ganhou mais poder porque o dragão parecia cada vez mais perigoso. O dragão ganhou mais seguidores porque muitos habitantes passaram a vê-lo como a única força capaz de enfrentar o Herói. Cada um justificava a existência do outro. Cada excesso de um servia como argumento para o excesso seguinte do adversário.
Até que o Herói percebeu que talvez tivesse alimentado demais a criatura.
Tentou reduzir a comida. O dragão passou a procurá-la sozinho. Tentou ordenar que voltasse à caverna. O dragão não obedeceu. Tentou lembrar-lhe, de alguma maneira, quem havia permitido que crescesse tanto. Mas monstros não costumam demonstrar gratidão por aqueles que os alimentam.
Ainda assim, o Herói acreditava conhecer a criatura. Durante tantos anos observara seus movimentos, antecipara seus rugidos e aprendera a usar o medo que ela provocava. Imaginava que, no momento necessário, bastaria puxar a corrente.
Foi até a montanha, diante de todo o reino, e puxou.
Nada aconteceu.
Puxou novamente e então compreendeu aquilo que deveria ter percebido muito antes: a corrente já não prendia o dragão.
Era o dragão que segurava a corrente.
A criatura havia se tornado grande demais, forte demais e, sobretudo, independente demais para continuar desempenhando o papel que lhe fora reservado. O Herói tentou enfrentá-la, depois tentou negociar e finalmente tentou fugir. Mas monstros alimentados durante muito tempo adquirem seus próprios apetites.
O dragão o engoliu.
Durante algum tempo, o reino permaneceu em silêncio. Por tantos anos seus habitantes haviam aprendido que existiam apenas duas possibilidades — o Herói ou o dragão — que ninguém sabia muito bem o que fazer quando restara apenas uma.
Então a criatura desceu lentamente da montanha, atravessou os portões, caminhou até a praça e subiu no pedestal onde durante tantos anos discursara seu adversário.
Olhou para a multidão e disse:
— Não tenham medo. Eu vim salvá-los.
Talvez a verdadeira lição daquela história não estivesse no destino do Herói nem na vitória do dragão. Estava na relação que os tornara necessários um ao outro.
O Herói acreditou que poderia alimentar o medo sem perder o controle sobre aquilo que o produzia. Precisava de um inimigo suficientemente assustador para justificar sua condição de salvador, mas não tão poderoso que pudesse dispensá-lo. Durante muito tempo, a fórmula funcionou. O medo fortalecia o Herói; o Herói fortalecia o dragão; e cada um oferecia ao reino a melhor razão para temer o outro.
Até que a criatura cresceu demais.
Talvez seja esse o risco de toda política construída sobre a necessidade de um inimigo. Quando nossa importância depende da ameaça que prometemos combater, podemos ser tentados a preservá-la, exagerá-la ou até alimentá-la.
Mas monstros não sabem que foram criados para desempenhar um papel.
Eles crescem.
E, às vezes, devoram quem os alimentou.