Os Novos Doze Trabalhos de Hércules

Depois de vencer os monstros da Antiguidade, Hércules foi convocado novamente. Ninguém lhe avisou que, no século XXI, os monstros haviam aprendido a se disfarçar.

Depois de alguns milhares de anos de aposentadoria, Hércules recebeu uma nova convocação.

A humanidade enfrentava problemas que pareciam insolúveis e alguém se lembrou de que havia, na Antiguidade, um homem especializado em tarefas impossíveis.

O currículo era impressionante.

Hércules havia matado o Leão de Nemeia, derrotado a Hidra de Lerna, capturado o Javali de Erimanto, limpado em um único dia as cavalariças de Áugias, sustentado o céu sobre os ombros e até descido ao mundo dos mortos para buscar Cérbero.

Parecia perfeitamente qualificado para o século XXI.

Quando lhe explicaram que seriam novamente doze trabalhos, Hércules sorriu.

— Já fiz isso antes.

Ninguém teve a delicadeza de avisá-lo de que os monstros haviam mudado.

O primeiro, pelo menos, pareceu familiar. Era preciso derrotar a Hidra da Desinformação.

Hércules encontrou-a espalhada pelo mundo, produzindo boatos, teorias conspiratórias, falsificações e certezas fabricadas. Sacou a espada e cortou uma mentira. Imediatamente surgiram duas. Cortou as duas e apareceram quatro. Quando chegou a oito, percebeu que algumas já possuíam milhões de seguidores e se multiplicavam mais rapidamente do que ele conseguia brandir a espada.

Guardou a arma.

Da primeira vez havia sido mais fácil.

Em seguida mandaram-no limpar as novas Cavalariças da Corrupção. Hércules conhecia aquele tipo de trabalho. Na Antiguidade, desviara dois rios e fizera as águas atravessarem os estábulos do Rei Áugias, carregando em poucas horas a sujeira acumulada durante anos.

Tentou repetir a solução.

Enquanto limpava uma extremidade das cavalariças, porém, alguém depositava mais sujeira na outra. Aumentou o fluxo dos rios. A quantidade de esterco também aumentou.

Logo apareceram especialistas para explicar que aquilo talvez nem fosse esterco. Tudo dependia da interpretação. Outros admitiam que era, mas lembravam que o esterco produzido pelo lado adversário tinha cheiro muito pior.

Hércules começou a sentir saudades do Rei Áugias.

O Leão da Intolerância apresentou uma dificuldade diferente. O antigo Leão de Nemeia possuía uma pele que nenhuma arma conseguia perfurar. O novo era protegido por algo talvez ainda mais resistente: a certeza absoluta de estar certo.

Hércules tentou agarrá-lo, mas descobriu que o animal crescia cada vez que alguém transformava uma diferença em ameaça, um adversário em inimigo ou uma dúvida em traição.

Quanto mais as pessoas gritavam umas com as outras, maior ele ficava.

Não havia onde apertar.

Veio então o Touro da Polarização, correndo furiosamente de um extremo ao outro. Quando tentavam segurá-lo pela direita, disparava para a esquerda. Quando o puxavam pela esquerda, investia para a direita.

No centro sobrava cada vez menos espaço.

Hércules tentou imobilizá-lo.

Metade da multidão imediatamente o acusou de trabalhar para a direita. A outra metade garantiu que servia à esquerda.

Foi provavelmente a primeira vez em sua longa existência que Hércules conseguiu ser chamado de fascista e comunista no mesmo dia.

Começou a desconfiar de que os novos trabalhos exigiriam menos músculos e muito mais paciência.

Quando recebeu a missão de expulsar as Aves do Ódio, lembrou-se das criaturas do Lago Estínfalo, com seus bicos de bronze e penas afiadas como flechas. As novas pareciam muito menos ameaçadoras. Na verdade, cabiam na palma da mão.

Hércules examinou uma delas.

Chamava-se telefone.

Por aquele pequeno objeto circulavam insultos, ameaças, humilhações e condenações capazes de atravessar oceanos em segundos.

Hércules tentou usar o antigo chocalho de bronze que Atena lhe dera para espantar as aves.

Ninguém ouviu.

Todos estavam ocupados demais escrevendo.

As Éguas da Guerra também lhe pareceram conhecidas. As de Diomedes alimentavam-se de carne humana. As novas conservavam o mesmo apetite, mas agora dispunham de drones, mísseis, satélites e armas capazes de destruir cidades inteiras.

Mais impressionante ainda era a quantidade de argumentos construídos para explicar por que cada nova guerra era inevitável.

Hércules perguntou quem havia começado.

Recebeu tantas respostas quanto havia lados envolvidos.

Perguntou quem poderia terminar.

Todos apontaram para os outros.

Começou então a perceber que derrotar monstros talvez fosse mais simples do que derrotar justificativas.

O trabalho seguinte parecia menos perigoso. Bastava encontrar o Cinturão da Justiça.

Hércules descobriu, para sua surpresa, que todos o procuravam. Governos queriam justiça. Oposições queriam justiça. Ricos e pobres queriam justiça. Vencedores e derrotados queriam justiça.

Durante alguns instantes, acreditou ter encontrado finalmente uma tarefa simples.

Até perceber que quase todos acrescentavam a mesma pequena condição:

— Comece pelos outros.

Recuperar o Rebanho da Verdade revelou-se ainda mais complicado.

Hércules procurou durante meses e encontrou milhares de rebanhos. Cada grupo garantia possuir o verdadeiro. Havia uma verdade para cada partido, uma para cada país, uma para cada canal, uma para cada comunidade digital e, em certos casos, uma para cada pessoa.

Hércules cometeu então a imprudência de perguntar se a verdade não deveria ser uma só.

A pergunta provocou enorme controvérsia.

Criaram uma comissão para investigar suas intenções.

Já bastante cansado, recebeu com entusiasmo a missão de colher as Maçãs da Prosperidade.

Nunca haviam existido tantas.

A humanidade produzira riquezas que nenhum imperador da Antiguidade conseguiria imaginar. Máquinas realizavam trabalhos extraordinários, a medicina prolongava vidas, informações atravessavam o planeta instantaneamente e conhecimentos acumulados durante séculos estavam ao alcance de bilhões de pessoas.

Hércules contemplou maravilhado aquele imenso jardim.

Só então percebeu que milhões de seres humanos continuavam olhando para as maçãs através das grades.

Perguntou quem possuía a chave.

Ninguém soube responder.

O Javali das Mudanças Climáticas tinha pelo menos uma qualidade que Hércules apreciou imediatamente: não participava de debates.

Avançava sem pedir passaporte, ignorando fronteiras, ideologias, eleições e pesquisas de opinião. Não parecia interessado em saber se um país era capitalista ou socialista, democrático ou autoritário.

Finalmente, um adversário que simplesmente existia.

Mas, enquanto Hércules tentava capturá-lo, multidões discutiam se o javali realmente existia, quem o havia alimentado, quem deveria pagar pela jaula e se prendê-lo não prejudicaria a economia.

Hércules percebeu que talvez o javali fosse a parte mais simples do problema.

O décimo primeiro trabalho também lhe trouxe uma sensação familiar. Pediram-lhe que sustentasse novamente o céu.

Ele já conhecia aquele peso.

Desta vez, porém, colocaram sobre seus ombros também dívidas públicas, sistemas previdenciários ameaçados, recursos naturais consumidos, infraestrutura envelhecida, promessas acumuladas e contas que ninguém desejava pagar no presente.

Hércules perguntou quem pagaria.

Apontaram para pessoas que ainda não estavam ali.

— Quem são?

— As próximas gerações.

Hércules achou estranho enviar uma conta a quem ainda não chegara.

Explicaram-lhe que essa era justamente a vantagem.

O futuro, que ainda não vota, recebe a conta.

Restava apenas o décimo segundo trabalho.

Hércules estava exausto, mas aliviado. Havia enfrentado onze tarefas que pareciam impossíveis. Faltava uma.

Perguntou onde estava Cérbero.

Disseram-lhe que o último monstro era o mais perigoso de todos. O problema era que ninguém sabia exatamente onde encontrá-lo.

Hércules saiu à procura.

Visitou governos e parlamentos, empresas e sindicatos, universidades e templos, tribunais e quartéis. Percorreu democracias e ditaduras, países ricos e pobres, Oriente e Ocidente. Conversou com conservadores e progressistas, religiosos e ateus, nacionalistas e cosmopolitas.

Todos o receberam muito bem.

E todos sabiam exatamente onde estava o monstro.

Do outro lado.

Hércules continuou procurando até perceber que havia percorrido praticamente o mundo inteiro.

Voltou sem Cérbero.

— Não encontrei.

Um velho que acompanhara silenciosamente parte de sua jornada aproximou-se. Não carregava espada, mapa ou instruções.

Trazia apenas um espelho.

Entregou-o a Hércules.

O herói olhou para o próprio rosto e permaneceu em silêncio.

Então compreendeu.

Os monstros que enfrentara milhares de anos antes possuíam uma extraordinária vantagem: pareciam monstros.

Tinham várias cabeças, dentes enormes, garras, veneno, asas de bronze. Ninguém precisava organizar um debate para decidir se a Hidra era realmente uma Hidra.

Os monstros modernos eram diferentes.

Haviam aprendido a se esconder dentro das pessoas, das instituições, das ideologias, das boas intenções e, principalmente, das certezas.

Alguns eram alimentados pelo medo. Outros, pelo ressentimento. Muitos cresciam graças à nossa extraordinária capacidade de reconhecer nos outros defeitos que raramente conseguimos enxergar em nós mesmos.

Os mais perigosos haviam aprendido até mesmo a se apresentar como virtudes.

Hércules devolveu o espelho.

— Não posso fazer este trabalho por vocês.

Pela primeira vez em milhares de anos, o homem que havia estrangulado leões, derrotado monstros, sustentado o céu e regressado vivo do mundo dos mortos declarava uma tarefa impossível.

Antes de partir, deixou o espelho sobre a mesa.

Talvez tenha sido essa a única ferramenta que realmente poderia nos oferecer.

Os monstros da Antiguidade precisavam ser derrotados.

Os nossos talvez precisem, antes de tudo, ser reconhecidos.

É sempre mais fácil identificar a intolerância, a mentira, a injustiça, o ódio e a irracionalidade quando pertencem aos outros. Talvez por isso a humanidade tenha se tornado tão competente em apontar culpados e continue tão pouco preparada para reconhecer responsabilidades.

Depois de milhares de anos, o último trabalho de Hércules continua esperando por nós.

Não exige força suficiente para estrangular um leão, coragem para enfrentar uma Hidra ou músculos capazes de sustentar o céu.

Exige algo aparentemente muito mais simples.

Olhar para o espelho.

E ter coragem de perguntar se, entre todos os monstros que passamos a vida procurando do outro lado, algum deles também não estará olhando de volta para nós.

David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor universitário aposentado. Nascido no Brasil, filho de imigrantes judeus do leste europeu, vive há mais de três décadas nos Estados Unidos. Doutor pela Northwestern University, escreve sobre sociedade, democracia, comportamento humano, ética e cultura. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon.com.br, e prepara o lançamento de seu novo livro, A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim). Mais em www.davidgertner.com.
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