Presente de Grego

Os cavalos de Troia mudaram de forma. Continuamos, porém, abrindo os portões para tudo aquilo em que desejamos acreditar.

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Durante dez anos, os gregos tentaram entrar em Troia e fracassaram. Exércitos, armas e estratégias não conseguiram atravessar suas muralhas. Foi preciso construir um presente.

Um enorme cavalo de madeira foi deixado diante da cidade. Os gregos desapareceram. Pareciam finalmente derrotados. Depois de uma década de guerra, os troianos tinham diante de si aquilo que mais desejavam: a confirmação de que haviam vencido.

Laocoonte, sacerdote troiano que desconfiou do cavalo, advertiu seus compatriotas. Havia alguma coisa errada naquele presente abandonado pelo inimigo. Mas a cautela costuma ser pouco sedutora quando compete com uma boa notícia. Os troianos preferiram acreditar.

Abriram os portões e puxaram o cavalo para dentro.

Talvez esse seja o detalhe mais fascinante de toda a história. Troia não foi invadida. Pelo menos não inicialmente. Aquilo que seus inimigos não haviam conseguido introduzir pela força foi levado para dentro das muralhas pelos próprios habitantes da cidade.

O Cavalo de Troia sobreviveu porque nunca foi apenas uma história sobre guerra. É uma história sobre uma vulnerabilidade humana muito mais profunda: nossa facilidade para confundir aquilo que desejamos com aquilo que é verdadeiro.

Os cavalos de madeira continuam chegando. Apenas mudaram de aparência.

Às vezes vêm embrulhados em promessas políticas. Prosperidade sem sacrifícios. Impostos menores sem redução de benefícios. Serviços públicos melhores sem necessidade de financiá-los. Segurança absoluta sem perda de liberdade. Empregos protegidos sem consequências econômicas. Problemas complexos resolvidos rapidamente, desde que entreguemos poder suficiente a alguém que garante saber exatamente o que fazer.

São presentes irresistíveis porque dispensam aquilo de que menos gostamos: escolhas difíceis.

O populismo conhece bem essa fragilidade. Não precisa inventá-la. Basta explorá-la. Seu talento não está necessariamente em convencer as pessoas de algo em que jamais acreditariam, mas em transformar desejos em promessas e promessas em certezas.

Para cada problema complicado, uma explicação simples. Para cada frustração, um culpado. Para cada medo, um inimigo. Para cada desejo, uma promessa.

E, como todo bom presente de grego, a embalagem é muito mais atraente do que o conteúdo.

Seria fácil colocar toda a responsabilidade sobre quem oferece o presente. Mas todo Cavalo de Troia precisa de duas partes: alguém disposto a construí-lo e alguém disposto a abrir os portões. Promessas impossíveis sobrevivem não apenas porque há quem as faça, mas porque frequentemente preferimos quem promete o que desejamos a quem nos explica os limites do possível.

Mas seria confortável demais imaginar que apenas a política constrói cavalos de Troia.

Eles estão por toda parte.

O crédito fácil permite consumir hoje e descobrir amanhã quanto custou. Serviços gratuitos entram em nossas casas e em nossos telefones enquanto pagamos por eles com informações sobre nossos hábitos, preferências e intimidade. Redes sociais prometem aproximar pessoas e frequentemente acabam organizando-as em tribos que quase não conseguem mais conversar entre si. Tecnologias criadas para economizar nosso tempo passam a disputar cada minuto de nossa atenção.

Nada disso significa que crédito, redes sociais ou tecnologia sejam necessariamente ruins. O cavalo tampouco era perigoso por ser feito de madeira. O problema estava no que carregava.

Talvez tenhamos aprendido a desconfiar menos justamente porque os presentes se tornaram melhores.

Queremos conveniência. Queremos segurança. Queremos prosperidade. Queremos pertencer. Queremos respostas. E queremos, sobretudo, que problemas difíceis tenham soluções fáceis.

É exatamente por isso que continuamos vulneráveis.

Há sempre alguém disposto a nos oferecer aquilo que desejamos, omitindo discretamente aquilo que teremos de entregar em troca.

Nesse sentido, Laocoonte continua entre nós. Às vezes é um cientista dizendo que não existe solução milagrosa. Um economista lembrando que toda escolha tem custos. Um historiador advertindo que certas experiências já foram tentadas. Um jornalista fazendo perguntas inconvenientes. Um especialista explicando que a realidade é mais complicada do que cabe num slogan.

O problema é que a prudência raramente desperta entusiasmo.

É difícil competir com quem distribui presentes quando se tem apenas dúvidas para oferecer.

Talvez por isso a advertência que atravessou tantos séculos continue necessária. Não porque devamos desconfiar dos gregos, evidentemente, mas porque deveríamos desconfiar um pouco mais daquilo que chega sem custo, sem consequência, sem contrapartida e, sobretudo, exatamente com a forma dos nossos desejos.

O Cavalo de Troia nunca desapareceu.

Às vezes chega como promessa. Às vezes como solução milagrosa. Às vezes como benefício sem custo. Às vezes como a certeza confortável de que todos os nossos problemas são culpa de alguém.

Continuamos abrindo os portões, puxando o cavalo para dentro das muralhas e celebrando antes de perguntar o que ele carrega.

Afinal, os presentes mais perigosos não são aqueles que somos obrigados a aceitar.

São aqueles que desejamos receber.

David Gertner, Ph.D. é escritor, ensaísta e professor aposentado. É autor de IA e Eu: A Inesperada Jornada de Liora e David, disponível na Amazon. Atualmente trabalha em novos projetos de ficção filosófica, entre eles A Enciclopédia das Coisas que Nunca Deveriam Ter Acontecido (Mas Aconteceram Mesmo Assim), O Instituto de Estudos Avançados do Silêncio e O Departamento de Pesquisas Avançadas Sobre o Significado do Tempo. Seus ensaios exploram temas ligados à memória, identidade, cultura, tecnologia, política, história e condição humana. Mais informações em www.davidgertner.com.